


Homer Simpson é protestante. Freqüenta a igreja aos domingos, tem a Bíblia como regra de fé e prática, e orienta-se pela ortodoxia calvinista. Tem noção de quem o ouve e o admira. Tem noção de que, quando fala, possui aprovação quase unânime.
Ao ser passado pra trás, fez questão de ser ainda mais protestante. Há meses protesta contra a FOX, a casa que o convidou para entrar há 18 anos. Nada disso foi levado em consideração quando Homer alcançaria o seu momento máximo.
Na verdade, para muitos, Homer Simpson ficou mudo. Waldyr Sant’anna, o dublador que melhor encarnava o espírito do personagem do desenho de Matt Groening, usando somente suas cordas vocais, foi tirado da produção do filme e do seriado dos Simpsons, após entrar em litígio com a FOX. Ah, e Waldyr é presbiteriano.
A religião de Homer Simpson
Waldyr é presbiteriano, uma das denominações mais tradicionais da igreja protestante no mundo. Embora more na Urca, freqüenta a Igreja Presbiteriana da Tijuca. Seu rosto é de uma morenice quase indiana, e o sorriso é aberto com dentes que, de fato, parecem desenhados. Ao atender ao telefone, nunca diz alô, e sim “Diga!”, num timbre de voz que já lembra o de Homer.
Ele explica que o fato da família Simpson ser protestante o ajudou a se adaptar ao seriado. Mas e as críticas ácidas à religião? Ele não se incomoda, acha que “eles satirizam situações, sem outra intenção a não ser a de transformá-las meramente em sátiras”.
A briga com a FOX
A produtora e distribuidora de filmes norte-americana lançou as temporadas em DVD da série, mas não pagou os devidos direitos a Waldyr. Ele não teve escolha senão entrar na justiça contra a FOX, que por sua vez tirou o dublador do filme, que é considerado um dos arrasa-quarteirões de 2007 em bilheteria. Waldyr já tinha gravado o trailer e os teasers do filme, disponíveis no YouTube dois meses antes da estréia.
“Os Simpsons – o filme” é um dos poucos lançamentos internacionais que chegam aos cinemas brasileiros com muito mais cópias dubladas do que legendadas. Não apenas por ser desenho animado, mas também porque boa parte dos fãs prefere as vozes em português. E muito desse sucesso deve-se à voz de Homer, isto é, de Waldyr.
Surge o Homer brasileiro
Por esses acasos que enriquecem reportagens pelo mundo (inclusive esta), um detalhe: Waldyr não era o indicado para o papel. “Quando vieram escolher as vozes brasileiras dos Simpsons eu dirigia filmes para a VTI Network, uma empresa do ramo de dublagem, e uma senhora da FOX americana, após ter percorrido alguns estúdios em São Paulo testando vozes, veio ao Rio, para o mesmo trabalho, chegando até a VTI”, explicou Waldyr em entrevista antiga, disponível na internet.
Por determinação da empresa, ele acompanhou a visita da dita senhora, e por falar inglês transmitia aos atores aquilo que ela pretendia extrair deles em termos artísticos, traçando um pouco do perfil de cada personagem. “Num determinado momento um ator que fazia o teste para o Homer não havia acertado a inflexão de voz, e eu fui mostrar à ele a maneira mais adequada ao perfil do Homer, não bastando a voz grave , mas sim falar como se tivesse um ovo na boca”. Ela gostou do som que Waldyr fez, e na mesma hora gritou: “That’s it, you are Homer Simpson! You are perfect! Ok, it’s enough for me, you are the Homer! ( É isso , você é o Homer. É perfeito. Para mim já basta, Você é o Homer)”.
O público tem poder
Desde 1958 Waldyr faz dublagens – “fiz os Tarzans todos” – e ele aproveita o assunto do litígio para chamar a atenção para o poder dos telespectadores contra as distribuidoras e suas imposições. “O que a FOX fez não foi apenas uma agressão a mim, mas a toda a classe de dubladores. E quem faz o sucesso de qualquer programa de TV é o seu público, que é um público consumidor daquele produto”.
Alguns parecem ter entendido o recado, pois caçaram as cópias legendadas de “Os Simpsons – o filme” só por não ser a voz de Waldyr nas dubladas. Pessoas que ainda nem ouviram a nova voz, ou seja, não chegaram sequer a comparar, pois para eles Homer é Waldyr, Waldyr é Homer. No “Oscar da Dublagem”, realizado anualmente, foi só ele aparecer no palco para a platéia berrar “Homer! Homer! Homer!”. Em retribuição, ele saúda a todos com a voz de...
Carlos Alberto, o dublador escolhido para o filme (e para o seriado), parece bom, mas depois de um tempo o espectador parece cansar da voz, que em alguns momentos esganiça. Com Waldyr não era assim, a piada era metade do roteirista e metade do dublador. A opinião dele sobre o substituto: “excelente pessoa e um bom profissional aprovado e escolhido pela FOX”. E o filme, assistiu? “Não.”
