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29/04/2007 - O que esperar de um Reality Show Evangélico?
Por Rev. Mario Freitas (*)

Antes da febre da TV a cabo, reclamávamos de não ter o que assistir na televisão. Além do noticiário e do bom e velho futebol, não sobrava quase nada. Já agora quase me arrependo de assinar esses canais alternativos. Sinto que jogo dinheiro fora, por exemplo, visto que não tenho tempo para assistir os poucos filmes bons que exibem.

Os canais de esporte mostram alguma coisa boa, mas também chegam às extremidades da monotonia ao exibir campeonatos de dominó e poker. Mas sinceramente, pouca coisa é pior do que as emissoras evangélicas.

Num canal, vejo uma tentativa forçosa de projetar algumas versões gospel de apresentadores "globais", como Ana Maria Braga e Luciano Huck. Em outro, cultos em atividade litúrgica extremista, com muita gritaria, pouca exposição bíblica e uma clara intenção de divulgar uma igreja ou denominação específica, mais do que simplesmente a fé no Salvador. Mas o maior absurdo eu vi outro dia: o anúncio do primeiro reality show evangélico do Brasil. Confesso que tremi.

Apesar do programa anunciado ter um outro nome ("Inove Jovem", ou algo do tipo), o fato é que está para vir um Big Brother Gospel, sem tirar nem pôr. Dez ou doze jovens cristãos, procedentes de diversas denominações e cidades brasileiras, irão competir numa casa por um certo período, seguindo o modelo do programa mantido pela Rede Globo com freqüência anual. Na chamada, os "BBGs" eram enumerados com suas fotos, cidades e igrejas de origem. Minha primeira reação, sinceramente, foi de auto-condenação pelo fato de insistir em procurar alguma coisa boa nesses canais.

Mas depois do primeiro impacto comecei a refletir um pouco mais. Por um instante, ponderei se acaso o grande chato não seria eu. Quem sabe um reality show fosse tudo o que a igreja brasileira precisava, e eu simplesmente não percebera. Será que eu é que estava sendo radical demais? - pensei. E se esses jovens fossem verdadeiros modelos de santidade, a servir de exemplo para toda a juventude cristã do Brasil? Me esforcei, mas por fim não me convenci. Acabei questionando mesmo o que a igreja poderia esperar de uma iniciativa como esta. Que tipo de expectativa podemos ter sobre um BBG?

Um primeiro pensamento que me vem é que um reality show evangélico virá produzir um protótipo cristão que pouco impressionará o real world, ou seja, o mundo real. Honestamente não consigo prever que a sociedade será impactada com o testemunho de jovens que não tinham o que fazer e se internaram numa casa em busca de um prêmio qualquer. O BBB é assim: um ajuntamento de modelos e manequins que falharam em atingir a fama nas passarelas, jovens professores desempregados e até um goleiro sem clube pra jogar. Quanto ao BBG, não presumo que se tratará de jovens com alto padrão cultural ou intelectual. Afinal, o bom jovem universitário que teme ao Senhor, que planeja uma vida familiar abençoada e projeta uma carreira profissional bem sucedida não disporá de um ou dois meses para participar de algo tão sem nexo.

As igrejas sérias, que se preocupam em efetivamente apregoar a necessidade de uma vida santa aos pés de Cristo, estarão ameaçadas. Esses jovens lançarão hábitos que toda uma juventude cristã tomará por modelo, e depois fatalmente os pastores terão de "ajuntar os cacos". Sua maneira de falar, os desdobramentos afetivos que possam haver na casa, seu modo de vestir, tudo isto aparecerá como sendo o novo perfil do jovem cristão, de forma que as igrejas que já possuem seus valores terão de "engolir a seco".

O que mais me assusta é que um programa como este surge para homologar a necessidade que temos de copiar os padrões da secularizados do nosso tempo. Estas ondas chegam para registrar que a evangelização instituída por Jesus, que visava trazer os méritos de Cristo a um mundo sem Deus, foi substituída por uma necessidade de nos condicionarmos às demandas do mundo. E assim, os cristãos produzidos são cada vez menos dignos deste nome.

Numa coisa, porém, o BBG não falha: em transmitir o senso de que estamos sendo constantemente observados. Nossa caminhada como igreja está em interminável processo de observação. O Espírito do Emanuel, Deus conosco, é o par de olhos que filma cada segundo da nossa existência. Mas do jeito que a coisa anda, meu receio é que os olhos de misericórdia que vêm sempre "dar uma espiadinha" em nossas vidas nos encontrem perdidos e desnudos a vagar pela casa.

(*) Rev. Mario Freitas é pastor da 3ª Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte, foi missionário na China, autor e conferencista.
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