05/04/2007 - A Marca da Besta
Por Rev. Clinton César
Confesso que o número 666 sempre me causou muita curiosidade. Desde criança, aprendi que esse era o número da besta, um símbolo de tudo aquilo que se opõe a Deus e sua vontade. Mas admito que nunca me satisfiz com respostas prontas e que, sendo assim, gastei boa parte do meu tempo especulando sobre o que seria, na verdade, a tal marca da besta e o que significava esse tal de 666.
Em meio a muita especulação bíblico-teológica, já faz alguns anos, por exemplo, que ouço falar de um microchip do tamanho de um grão de arroz, que seria implantado sob a pele da mão direita, e que funcionaria como uma espécie de cartão de crédito personalizado, com todas as informações pessoais, inclusive o código genético...
Lendo e relendo o Apocalipse, porém, percebi que imediatamente depois de falar sobre a marca da besta, identificada com o número 666 (Ap 13.16-18), João fala sobre a marca do Cordeiro. E de repente um detalhe saltou aos meus olhos: enquanto a marca da besta é descrita como um "número", a marca do Cordeiro é descrita como um "nome" ("Então olhei, e diante de mim estava o Cordeiro, em pé sobre o monte Sião, e com ele cento e quarenta e quatro mil que traziam escritos na testa o nome dele e o nome de seu Pai" - Ap 14.1). Então me lembrei que ao escrever para a igreja de Pérgamo, Jesus prometeu que daria aos crentes fiéis "uma pedrinha branca com um novo nome nela inscrito, conhecido apenas por aquele que o recebe" (Ap 2.17). E que aos cristãos de Filadélfia, a promessa de Jesus dizia: "Escreverei nele o nome do meu Deus e o nome da cidade do meu Deus... e também escreverei nele o meu novo nome" (Ap 3.12).
Será que esse contraste foi meramente casual...? Ouso imaginar que João está mostrando aquilo que caracteriza o reino das trevas e aquilo que caracteriza o reino da luz. Enquanto os seguidores da besta são marcados com um número, os seguidores do Cordeiro são marcados com um nome. Números quantificam. Nomes qualificam. Números são estatísticas. Nomes são histórias. Tudo começa a fazer sentido...
Acredito que João está denunciando um sistema que, por séculos, tem transformado pessoas em números. Conforme Eugene Peterson diz, "quando nascemos, recebemos um nome e não um número. O nome é a parte da fala pela qual somos reconhecidos como pessoa. Não somos classificados como uma espécie de animal. Tampouco somos rotulados como um composto químico. Não somos avaliados pelo nosso potencial econômico e valor em dinheiro...". Os seguidores do Cordeiro também são cordeiros e, como o mesmo João já havia escrito, o Bom Pastor "chama as suas ovelhas pelo nome" (Jo 10.3) e não pelo seu número.
Falando sobre a marca da besta, João ainda explica que "ninguém poderia comprar nem vender, a não ser quem tivesse a marca" (Ap 13.17). Interessante que a marca da besta, um número, tem a ver com compra e venda. Quando compramos, valemos o quanto podemos pagar. Não importa quem somos, desde que possamos comprar. Frei Beto, refletindo sobre a "religião" do consumo, faz um importante alerta: "Se chego à casa de um amigo de ônibus, meu valor é inferior ao de quem chega de BMW. Isso vale para a camisa que visto ou para o relógio que trago no pulso. Não sou eu, pessoa humana, que faço uso do objeto. É o produto, revestido de fetiche, que me imprime valor, aumentando a minha cotação no mercado das relações sociais".
Na sociedade da besta, ao invés das pessoas darem valor às coisas, são as coisas que dão valor às pessoas. Valemos pelo que podemos comprar. É verdade: lidar com as massas é mais fácil do que lidar com as pessoas; mas também é mais perigoso. Números são impessoais. Pessoas são pessoas porque trazem um nome. Quando os números se tornam mais importantes que os nomes, as pessoas se bestializam.
O Eugene Peterson também disse que "em muitas áreas da vida, a informação precisa de nosso número de carteira de identidade é mais importante do que a integridade com que vivemos. Em muitos setores da economia, o título que ostentamos é muito mais significativo do que nossa habilidade de executar certas tarefas. Em muitas situações, a imagem pública que as pessoas têm de nós é mais vital do que as relações pessoais que desenvolvemos com elas. Cada vez que nos movemos do pessoal para o impessoal, do concreto para o abstrato, somos diminuídos, tornamo-nos inferiores. É necessário resistir se quisermos manter a nossa humanidade".
A grande questão, portanto, é se você quer ser mais um número, ou ser chamado pelo nome? Que marca você traz? A quem você pertence? À besta, ou ao Cordeiro?