04/03/2007 - A Grande Batalha
Rev. Felipe Telles Ferreira
(*)
Somos autores de muitas obras. E se em algum dia tivéssemos que expor cada uma delas numa galeria, certamente teríamos muito orgulho de algumas e vergonha de outras. Olhando para o seu conjunto perceberíamos que um excesso de tinta ou um risco exagerado tenham transformado uma possível bela arte em algo sem valor algum. Mas por outro lado, a medida certa e a harmonia entre cores e formas puderam fazer de uma pedra, uma escultura admirável.
Assim somos nós, capazes de verdadeiras pinturas de bondade contrastando com aberrações que não teriam lugar em nenhuma exposição. Podemos passar um dia inteiro numa missão solidária, ajudando uma instituição de caridade, debaixo de um calor enorme, com um som ensurdecedor de crianças brincando e bandinha tocando, almoçando em pé, sabendo que não haverá nenhuma recompensa e mesmo após esse gesto altruísta, chegar em casa, descansar e no dia seguinte nos sentir ofendidos e discutir seriamente com alguém porque deixaram o jornal espalhado ou o pão torrado demais.
Para explicar o porquê de sermos assim, Paulo nos fala sobre uma verdadeira guerra que acontece em nós. Segundo escreveu na sua carta a Gálatas "...a carne milita contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais o que, porventura, seja do vosso querer" (Gl.5.17).
Não é a toa que às vezes é tão difícil ser cristão. Nos encontramos no meio de uma batalha interna querendo em Cristo resistir, mas sabendo que existe uma força militando contra esse desejo de fazer a vontade Deus. Com certeza, é mais fácil ignorar a guerra e fazer sempre o que "estiver no coração". Mas isso, definitivamente não é cristianismo.
Em seu livro "Cristianismo Puro e Simples", C.S.Lewis discute esse assunto e afirma que "não existem impulsos bons ou impulsos maus". A primeira vista isso pode soar mal. "Como assim? E a minha sede de vingança, meu egoísmo, meus pensamentos adúlteros, minha mesquinharia que briga por um pão que ficou torrado demais?". Na verdade, tudo isso são deturpações em nós! É o mau uso de alguns impulsos. Nossa sexualidade, nosso cuidado com a família, nosso patriotismo e nosso amor a nós mesmos existem em nós não como coisas boas ou ruins, mas como realidades a serem regidas pela nossa consciência cristã.
O grande problema está em absolutizá-los ou aboli-los completamente de nós. Precisamos desses impulsos no momento e na medida certa. Meu patriotismo, por exemplo, deve me levar a um voto consciente, a uma vida de oração e ação para que o Brasil se torne um lugar mais justo. Mas se levado a um extremo, posso considerar meu país o centro do mundo e assim desconsiderar ou agir como se os meus "próximos" que moram na Ásia tivessem que trabalhar como escravos para o meu bel-prazer.
Nossa maior dificuldade é que o pecado que habita em nós (a nossa carne) tornou turva a nossa capacidade de discernir como nos portar e distorceu a força de cada um desses impulsos. Peguemos o exemplo do jornal amassado do início desse texto. Não há nada de errado em dizermos com educação para o outro que gostamos de ver o jornal arrumado. É bom que coloquemos nossas opiniões e gostos, ao contrário estaríamos nos anulando. Mas parece que existe um vulcão egoísta em nós, nos fazendo sentir ofendidos, passados para trás nos impulsionando a reagir com rispidez por termos sido desrespeitados por um ato que muito provavelmente não teve essas intenções.
Precisamos muito da graça de Deus no nosso coração. Submeta-o sempre a Ele. Só assim essa guerra será vencida pelo lado do bem. E assim, com os nossos impulsos controlados por ele, brotará em nós não mais as obras da carne, mas o fruto do Espírito.
(*) O Rev. Felipe Telles Ferreira, mais conhecido como Felipex e ex-presidente da UMP-Rio, é pastor da Igreja Presbiteriana da Gávea.