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06/02/2007 - A neve quente
Por Marcos André Lessa

A orla de Olinda, cidade com alto potencial turístico de Pernambuco, é convidativa. Já o frio da região da Sibéria, norte da Rússia, a 70 graus abaixo de zero... Há poucos anos não havia registro de nenhum brasileiro que tenha pisado no solo gélido de lá. O ex-jogador de futebol do Santa Cruz, Marcelo Maurício, inaugurou as estatísticas. Mas a bola é só pretexto para a sua real vocação: ser missionário.

Ele pensava em ajudar financeiramente os missionários no mundo quando se transferisse para a Europa após despontar num time brasileiro. Sabe lá por que, surgiu em Olinda, sua cidade, uma professora de alemão e russo. Sabe lá por que, ele ganhou um livro raro de um embaixador russo que passava por Pernambuco, e que era ateu. Sabe lá por que, veio pregar em sua igreja um pastor, ex-jogador do Manchester United, um dos mais tradicionais times da Inglaterra. Marcelo foi traduzir a mensagem e emudeceu quando o pastor desafiou dez jovens para evangelizar a Rússia. Soube ele porque tudo antes foi confirmação de Deus.

Marcelo saiu então da cultura nordestina, patriarcal, para a cultura russa, radicalmente matriarcal. As mulheres gritam com os homens e batem neles, sustentam a casa e cuidam dos filhos. Os homens, em geral, bebem. 80% da população russa é alcoólatra, um hábito que começa por volta dos seis anos de idade.

A igreja ortodoxa russa não reconhece outras igrejas cristãs. Pensam que Calvino "é o maior demônio do inferno". Uma conseqüência da Reforma Protestante não ter chegado plenamente à Rússia e ainda ter sido sufocada pelo regime comunista ateu. Durante as pregações de Marcelo na Sibéria, houve quem pensasse que Jesus era um diretor da Organização das Nações Unidas (ONU) que viria para mediar conflitos étnicos da região.

Em alguns lugares, há uma Bíblia para cada grupo de 66 pessoas. Enquanto uns lêem os Evangelhos, outros estão lendo volumes do Velho Testamento, e em seguida revezam. A capital Moscou possui sete igrejas cristãs que não podem ser identificadas visualmente como tais e apenas duas livrarias evangélicas. Evangelizar sem autorização governamental dá três anos de cadeia; batizar alguém sem autorização dos pais, cinco anos. O dito popular "a coisa tá russa" se justifica.

Marcelo já foi preso sete vezes, sobreviveu a três atentados terroristas e três tentativas de homicídio (duas a bala, uma com faca). Numa dessas ocasiões, após ter sua família espancada - ele tem uma mulher e duas filhas, uma de cinco anos e outra de dois - a arma na sua cabeça falhou duas vezes seguidas. "Ainda bem que Deus não se estressa, não entra em depressão nem tira férias. Sabia que só sairia dali vivo se Ele quisesse".

A bola e a Bíblia - Se a mensagem de Cristo é direcionada a todos os povos, a linguagem universal contemporânea é o futebol. Marcelo mostra um vídeo em que, com a camisa do Flamengo ou do Corinthians e uma bola para fazer embaixadinha, é o centro das atenções. Nessas horas ele fala da vida e morte de Jesus, da remissão dos pecados, da salvação e vida eterna para os que ali o ouvem. A Sibéria é classificada como uma região que os missionários classificam de PNA: Povos Não-Alcançados pela mensagem cristã.

Ano passado, quando a seleção brasileira jogou um amistoso com a Rússia em Moscou, Marcelo esteve lá e falou com Ronaldo Fenômeno e com os Atletas de Cristo (Kaká, Edmílson, Zé Roberto), para autografarem Bíblias. É uma estratégia certeira: ninguém joga fora um presente assinado por craques do futebol brasileiro. "O Ronaldo me disse: 'Mas eu sou católico'. Eu falei que não tinha problema, era só ele dizer que cria em Deus e falar para as pessoas lerem a Bíblia que já estava de bom tamanho". Quando o inverno (que dura nove meses) permite, Marcelo joga peladas com os russos e dá aula em escolinhas de futebol. Nos intervalos, pregação.

A relação com o futebol também é usada por Marcelo para refletir criticamente sobre a relação da igreja com missões. "Se amássemos a Deus como as torcidas amam seus times, a igreja já teria cumprido sua missão de pregar em todo o mundo". O Seminário Presbiteriano do Norte, em Recife - aonde Marcelo se formou em teologia - é centenário, mas só possui grade de Missiologia há três anos. A doutrina da eleição, em que Deus já escolheu os que vão ser salvos, virou desculpa para a acomodação. "De trunfo para pregar, isso se tornou empecilho. Até 1950, a Igreja Presbiteriana era a maior denominação evangélica do Brasil. Hoje, no censo do IBGE, está classificada no estrato 'Outras denominações'". Os eleitos estão eleitos, mas precisam saber disso. Aí entra a anunciação do Evangelho, debaixo da soberania de Deus.

Marcelo deixa três perguntas para seus interlocutores: se já contribuíram financeiramente para sustentar missões; se já foram a algum campo missionário; e se oram pelos missionários no mundo. A situação sócio-econômica de cada um pode inviabilizar a afirmativa à primeira questão (embora, como lembra Marcelo, a maior oferta foi a da viúva pobre, segundo Mateus 21:1-4). A indisponibilidade de tempo e ocasião pode impedir a presença junto a outros missionários, ainda que por um tempo. Mas encerra sua argumentação num misto de indignação e esperança de sensibilizar: "que desculpa daremos pra Deus por não orarmos pelos missionários?".

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